Jornalista
Lucélia Muniz
Ubuntu
Notícias, 23 de agosto de 2026
@luceliamuniz_09 @ubuntunoticias @joaolucian2
Muitas histórias não caberiam em um livro, em um filme, tão pouco
numa matéria, pois as vivências são plurais no seu processo de construção. São
as nuances da vida! Então, hoje o Ubuntu Notícias faz um recorte da Jornada
Educacional do Professor Mestre JOÃO LUCIAN FERREIRA DA SILVA que recentemente
recebeu a titulação com diploma pelo MESTRADO PROFISSIONAL EM ENSINO DE
HISTÓRIA – PROFHISTÓRIA pelo Centro de Humanidades da Universidade Regional do
Cariri-URCA.

João Lucian se declara um jovem camponês, negro pardo, professor
de História na rede estadual de educação do Estado do Ceará, filho de agricultores,
ambos não alfabetizados. Tem cinco irmãos, duas mulheres e três homens. As
mulheres possuem ensino superior completo e os homens o ensino fundamental
incompleto. Como muitas famílias nordestinas, a sua é fortemente marcada pela
coragem e bravura no enfrentamento às adversidades, sejam estas motivadas pelas
desigualdades sociais e preconceitos estruturais, sejam estas atenuadas pelas
consequências da irregularidade das chuvas e as características climáticas da
região em que vivemos.
Seu pai Luiz Fernandes, teve uma criação muita influenciada por
uma lógica patriarcal e machista de sociedade, e isso se reflete bastante na
sua personalidade e nos seus comportamentos, entendido por algumas pessoas como
“valores” do seu tempo. Por outro lado, fora um homem sempre engajado com
atividades agrícolas e pecuaristas, comprometido com a garantia da subsistência
familiar. Via no trabalho, sobretudo com a agricultura, a única forma de
ocupação e sentido para a vida, ideia que também repassava para os filhos.
Dona Joana, sua mãe, embora não alfabetizada, nunca aceitou essa
condição. Não ter tido condições de frequentar a escola quando criança, é, sem
dúvidas, um dos maiores traumas guardados da sua infância. “Ela conta que a
coisa que achava mais linda na vida era ver alguém escrevendo e/ou lendo.
Muitas vezes fugiu de casa para ficar na janela da escola olhando a professora
ensinar”, ressalta João Lucian. Mas, frequentar a escola era uma realidade que
lhe era negada, pois sua família não tinha condições de pagar para que ela e
seus irmãos estudassem.
Tornou-se adulta com a insatisfação dessa dívida da vida para
consigo. Embora a estrutura social e econômica ainda não lhes assegurasse
condições de acesso à educação, a mesma guardara seu sonho com muito zelo.
Enquanto isso, transferia para os seus filhos, sobretudo para João Lucian, seu
filho caçula, esse projeto de vida: estudar e ter melhores condições de se
viver através da educação.
Esse seu projeto era disputado com o seu pai todos os dias. “Ele
dizia para irmos para roça, ela dizia para irmos para escola”, lembra João Lucian.
Na realidade o que ela fazia não era transferir o projeto, e sim, uma projeção
nos filhos das coisas que desejava que tivesse acontecido com ela. Não à toa,
manteve-se agarrada ao seu sonho de aprender a escrever o seu próprio nome, e
após oito temporadas de Educação de Jovens e Adultos, na comunidade onde
reside, aos 48 anos de idade, conseguiu aprender a escrever e ler pequenas
palavras, e realizar o seu maior sonho: grafar em seus documentos – Joana
Ferreira da Silva.
“Lembro-me que quando ainda muito infante, em diálogo com a minha
mãe, ela me fez prometer que eu não desistiria de estudar como os meus irmãos
fizeram e que um dia seria o seu filho “doutor”, o doutor da família. Na
ocasião senti-me muito responsabilizado, pois, tinha consciência do meu gosto
pela escola, mas igualmente sabia da minha aversão à área da saúde”, disse João
Lucian.
Que ainda relata:
Durante anos guardei esse conflito, até que na passagem do ensino
fundamental para o ensino médio resolvi falar para ela sobre a impossibilidade
de atender a sua expectativa. Eu estava muito triste, receoso da tristeza que
lhe causaria. Ao comunicá-la que não queria ser o “doutor” dos seus sonhos, vi
num primeiro momento ela querer esbravejar: - “Que história é essa de não
querer estudar? O que você será sem a escola?” Respondi: “Eu não vou deixar de
estudar, apenas não quero ser o “doutor” que a senhora fala”.
Nesse instante vi mudar suas expressões, com riso na boca começou
me explicar que doutor era uma pessoa que tinha “terminado os estudos”, sabia
ler tudo sem gaguejar, que escrevia seu nome completo e uma carta bem feita,
que sabia falar em público e resolver qualquer problema. Continuou dizendo que
isso só seria possível se eu frequentasse a escola.
Mãe disse que achava a profissão de médico muito bonita, mas sabia
que precisava de bastante dinheiro para se formar, porque em Nova Olinda só
eram médicos os filhos dos ricos. De qualquer modo, já tinha presenciado muitos
médicos sem educação, e que o doutor que ela queria que eu fosse seria um homem
educado, respeitador e respeitado pelas pessoas.
Senti um alívio profundo. A alegria tomou conta de mim novamente,
pois, percebi que a partir da educação adquirida na escola e sobretudo na
comunidade, eu poderia ser sim o doutor da minha mãe, da minha família.
Minha mãe é uma das pessoas que conheço que mais demonstra
entusiasmo pelo processo de letramento, de amor por espaços de
ensino-aprendizagem, seja ele escolar ou não, que acredita e aposta no poder
transformador da educação. As memórias que guardo dos seus ensinamentos e de
sua obstinação com a leitura e a escrita me fazem estabelecer aproximações de
sua história com a da escritora Carolina Maria de Jesus.
É muito comum sermos surpreendidos por questionamentos sobre os
significados de palavras que ela consegue decifrar em cartazes, livros,
propagandas, sacolas, bem como palavras que escuta nos jornais e novelas.
Curiosa, não gosta de guardar dúvidas e estar sempre ampliando o seu
vocabulário. Com o seu visível amor pelas palavras e pelo conhecimento, vai nos
revelando um projeto singular de educação.
Ela nunca pegou na minha mão para me ajudar na coordenação motora
ao cobrir um pontilhado, não me ensinou a formar sílabas, nem a ler palavras. E
sei que isso lhe angustiava bastante. Entretanto, era ela quem pegava em minha
mão para banhar, vestir, levar para escola. Foi ela quem me ensinou palavras
para pedir ajuda, pedir desculpas, servir, resistir.
No mesmo sentido, me ensinou a ler a realidade, a compreender as
relações sociais, a projetar e buscar coisas boas para mim, nossa família e
comunidade. Dona Joana pedia e buscava, sem cerimônias, apoio em outras pessoas
para atender necessidades minhas, fossem pedagógicas ou materiais, sempre que
lhes faltava condições para tal.
Não guardo lembranças de ninguém (diretores, professores, colegas,
coordenadores) da minha experiência na educação básica que tenha desejado e
conseguido falar do papel da escola e da importância da educação com tanta
confiança e entusiasmo como minha mãe.
As percepções históricas que tenho hoje me oportunizam,
tristemente, ter consciência do quanto o corpo da minha mãe deve ter sido
invisibilizado e sua voz silenciada. Ela é uma mulher protagonista,
participativa, cheia de vivacidade, cuja sede de fala demonstra necessidade em
ser ouvida, o que para mim é sinal de toda uma vida negligenciada. Nessa sociedade
com o vigor de tantos marcadores estruturantes de dominação e violências,
quantos saberes advindos dela não foram ignorados/apagados por se tratar de uma
mulher, negra, pobre e sem alfabetização?!
A escritora negra Conceição Evaristo (2006) atribui o nascimento
de sua escrita à “grafia-desenho” que, na infância, ela via sua mãe fazer na
terra molhada utilizando gravetos de pau. Eu, em analogia à escritora, atribuo
minha permanência na escola e a utilização da educação como instrumento
político de transformação social, à escuta da voz insistente de minha mãe.
Essa maneira de conceber o mundo a partir do seu constante diálogo
com as aprendizagens adquiridas em qualquer espaço, formal ou não, me faz
enxergar a construção do projeto de educação que muito contribuiu para o meu
desenvolvimento pessoal e social. Na escola e, principalmente, em espaços
alternativos forjados pelos movimentos comunitários e sociais, foi-se
desenhando uma história cheia de sentidos e memórias, marcadas pelos “ecos” da
voz de Dona Joana.
JOÃO LUCIAN FERREIRA DA SILVA embasou sua tese de mestrado
intitulada de EXPERIÊNCIAS E PRÁTICAS PEDAGÓGICAS COMUNITÁRIAS NO ENSINO DE
HISTÓRIA a partir de suas vivências e este depoimento foi extraído do Capítulo onde
cita: “O
projeto de educação de uma mãe não alfabetizada”.