Jornalista
Lucélia Muniz
Ubuntu
Notícias, 10 de julho de 2026
@luceliamuniz_09 @ubuntunoticias @nicolauneto_
A arte afro-brasileira como instrumento de transformação social e
de educação antirracista foi o eixo central da oficina "Educação e Arte
Afro-Brasileira: Memória, Ancestralidade, Resistência e Identidade",
destinada aos educadores do Projeto ARCA. Pensada e desenvolvida pelo professor
Nicolau Neto, a formação propôs uma reflexão acerca do papel da arte
afro-brasileira na construção de uma educação mais inclusiva, democrática e
comprometida com a valorização da diversidade.
Segundo Nicolau Neto, o convite para essa discussão partiu do
idealizador do Projeto ARCA, em Altaneira-CE, o professor universitário Carlos
Tolovi. Ele destacou que a oficina teve duração de três horas, e buscou
integrar teoria e prática, abordando temas como memória, ancestralidade, resistência
e identidade negra.
A proposta se fundamentou na Lei nº 10.639/2003, que tornou
obrigatório o ensino da História e Cultura Afro-Brasileira e Africana nas
escolas brasileiras, reforçando o compromisso com a promoção das relações
étnico-raciais e o enfrentamento ao racismo estrutural.
O momento teve início com uma dinâmica de acolhida que convidou
educadores e educadoras do Projeto ARCA a refletirem sobre suas próprias
referências culturais e a reconhecerem a presença das matrizes africanas na formação
do país. O conceito de Sankofa, símbolo da filosofia dos povos Akan que
significa "voltar e buscar o que ficou para trás", foi apresentado
como inspiração para compreender a importância da memória e da ancestralidade
na construção da identidade.
"Durante a conversa", pontuou Nicolau, "os
educadores diacutiram o papel da memória na preservação dos saberes das
comunidades negras, destacando a tradição oral, a música, a dança, a
literatura, as religiões de matriz africana e as artes visuais como elementos
fundamentais para a transmissão de conhecimentos entre gerações". Dentre
os materiais apresentados foi evidenciado a contribuição histórica dos griôs
africanos como guardiões da memória coletiva.
Outro destaque durante a formação foi o debate referente a
resistência negra ao longo da história do Brasil, citando figuras como Dandara
dos Palmares, Zumbi dos Palmares, Luiza Mahin, Tia Simoa, Luís Gama, Carolina
Maria de Jesus, Conceição Evaristo, Jarid Arraes e Abdias Nascimento, Maria
Telvira, Cícera Nunes, dentre outras, reconhecidas por suas contribuições à
luta por direitos, igualdade e valorização da História e Cultura
afro-brasileira.
Na etapa dedicada às artes visuais, a oficina evidenciou a
trajetória e a produção artística de Abdias Nascimento, destacando sua atuação
como artista, intelectual e um dos principais nomes do movimento negro
brasileiro. As obras de Abdias, marcadas pela valorização da cosmologia
africana e dos símbolos da ancestralidade, serão utilizadas como ponto de
partida para reflexões sobre identidade e educação antirracista.
Além das discussões teóricas, as(os) participantes ficaram com a
responsabilidade de desenvolver a atividade prática por meio da "Galeria
da Resistência Negra", com o objetivo de produzir cartazes sobre personalidades
negras que marcaram a história do Brasil, relacionando suas trajetórias aos
conceitos de memória, ancestralidade, resistência e identidade. "A
ideia", segundo Nicolau, "é a construção de uma exposição
coletiva."
Sugestões
A Literatura pode inspirar projeto teatral e fortalecer o diálogo
entre arte, cultura e identidade. Essa foi uma sugestão apresentada durante a
oficina ao Projeto ARCA. "Entre as sugestões", destacou Nicolau,
"está a adaptação de "Quarto de Despejo", da escritora Carolina
Maria de Jesus, obra que retrata, em forma de diário, a realidade da pobreza e
da exclusão social vivida nas periferias brasileiras".
Outra possibilidade apresentada foi a montagem de um espetáculo
inspirado em "Torto Arado", de Itamar Vieira Junior. "A encenação
pode vir no formato de um musical que fale sobre a religiosidade do sertão
brasileiro ou demonstrar a trajetória das irmãs Bibiana e Belonísia,
personagens marcadas por um acidente na infância e por uma vida atravessada
pelas consequências do trabalho análogo à escravidão no Brasil contemporâneo.
Por fim, Nicolau também sugeriu a realização de um grande recital
de cordéis baseado na obra "Heroínas Negras Brasileiras em 15
Cordéis", da escritora cearense Jarid Arraes. A atividade valoriza a
literatura de cordel e resgata a história de mulheres negras que tiveram papel
fundamental na construção da sociedade brasileira.
"Com essas ações", destacou o professor Nicolau, "O
Projeto ARCA que já desenvolve um trabalho comprometido coma transformação
social, reafirma o compromisso de integrar cada vez mais literatura e artes,
transformando a leitura em experiências culturais capazes de despertar a
criatividade, a consciência crítica e o protagonismo dos seus participantes,
agora com foco direcionado a educação antirracista."