Jornalista
Lucélia Muniz
Ubuntu
Notícias, 01 de novembro de 2026
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Por Nicolau Neto | Blog Negro Nicolau
Ha 7 dias, a
democracia brasileira escreveu mais um capítulo importante de sua história.
Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi reeleito presidente da República, derrotando
Flávio Bolsonaro (PL) em uma disputa marcada pela polarização política, pela
intensa mobilização social e pelo envolvimento de milhões de brasileiras e
brasileiros que compreenderam a importância daquele momento para os rumos do
país.
O resultado final confirmou a vitória de Lula com 64.256.232
votos, correspondentes a 51,79% dos votos válidos, contra 59.826.041 votos de
Flávio Bolsonaro, que obteve 48,21%. Uma diferença de 4.430.191 votos.
Mais do que uma
vitória eleitoral, o resultado representa, sob a perspectiva de amplos setores
democráticos e populares, a reafirmação de um projeto político comprometido com
a democracia, a proteção dos direitos sociais e trabalhistas e a construção de
um país menos desigual.
A virada que nasceu da
mobilização popular
A vitória de Lula
ganha dimensão ainda mais significativa quando observamos o caminho percorrido
até a conclusão da disputa. Depois de terminar o primeiro turno atrás de Flávio
Bolsonaro, o presidente conseguiu reverter o cenário e conquistar a maioria dos
votos válidos na segunda votação.
Essa virada não pode
ser compreendida apenas pela movimentação das estruturas partidárias ou pelas
estratégias das campanhas. É necessário olhar para a sociedade brasileira e
reconhecer a importância da mobilização popular, da organização coletiva e do
envolvimento de pessoas que fizeram da defesa da democracia uma pauta
cotidiana.
Nas ruas, nas escolas,
nas universidades, nos locais de trabalho, nas comunidades e, especialmente,
nas redes sociais, milhares de jovens participaram ativamente do debate
político. Uma juventude que não se limitou a acompanhar os acontecimentos, mas
ocupou os espaços de comunicação, produziu conteúdos, compartilhou informações,
confrontou discursos antidemocráticos e levou a discussão sobre o futuro do
país para diferentes ambientes sociais.
A presença da
juventude foi particularmente importante por demonstrar que a política não é
assunto exclusivo das gerações mais velhas. Ao contrário, as decisões tomadas
nas urnas interferem diretamente no futuro de quem ainda está construindo sua
trajetória pessoal, profissional e cidadã.
A participação dos
idosos: democracia também é memória e resistência
Outro aspecto que
merece reconhecimento é o envolvimento da população idosa. Muitas pessoas,
mesmo diante das dificuldades de locomoção, das limitações próprias do
envelhecimento e dos desafios enfrentados no cotidiano, fizeram questão de sair
de suas casas para exercer o direito ao voto.
Há uma dimensão
profundamente simbólica nesse gesto. Pessoas que acompanharam diferentes
períodos da história brasileira, que vivenciaram momentos de autoritarismo,
redemocratização, conquistas e perdas de direitos, voltaram às urnas
conscientes da importância de sua participação.
Para esses cidadãos e
cidadãs, votar também significa defender uma história de lutas e conquistas.
Significa reconhecer que a democracia não é uma realidade definitiva, mas uma
construção permanente, que exige participação, vigilância e compromisso
coletivo.
A juventude e a
população idosa, cada uma a partir de suas experiências e perspectivas,
representam gerações diferentes que podem se encontrar em uma mesma defesa: a
de um Brasil onde a democracia seja preservada e os direitos conquistados não
sejam tratados como privilégios ou concessões. Embora o resultado nacional não
permita, por si só, atribuir a vitória a grupos etários específicos, a
participação desses segmentos merece ser reconhecida como parte importante da
vida democrática brasileira.
A escolha de um futuro
com direitos e oportunidades
A eleição também
colocou em discussão diferentes perspectivas para o futuro do país. Para além
da escolha de um nome para ocupar a Presidência da República, milhões de
brasileiros foram às urnas diante de questões que atravessam suas vidas: acesso
à educação, saúde pública, emprego, renda, moradia, alimentação, segurança,
respeito às diferenças e oportunidades para todos.
Nesse contexto, a
defesa dos direitos sociais e trabalhistas assume papel central. A expectativa
é que o novo mandato represente a continuidade das políticas públicas que
contribuíram para melhorar as condições de vida da população, mas também a
capacidade de avançar diante de problemas históricos que ainda persistem.
Não basta preservar
conquistas. É necessário ampliá-las, aperfeiçoá-las e garantir que cheguem
especialmente às populações historicamente marginalizadas. É nesse debate que
as políticas de equidade racial e de gênero precisam ocupar lugar de destaque.
Equidade racial e de
gênero não podem esperar
O Brasil continua
convivendo com profundas desigualdades raciais e de gênero. A população negra
ainda enfrenta obstáculos históricos no acesso à educação de qualidade, ao
mercado de trabalho, à renda, à representação política e aos espaços de poder.
Mulheres, especialmente mulheres negras, continuam submetidas a desigualdades
que atravessam diferentes dimensões da vida social.
Por isso, a reeleição
de Lula também renova a expectativa de fortalecimento das políticas públicas
voltadas à promoção da igualdade racial e de gênero. É fundamental avançar nas
políticas de ações afirmativas, ampliar o acesso e a permanência de estudantes
negros nas universidades e instituições de ensino, fortalecer as políticas de
enfrentamento ao racismo, combater a violência contra as mulheres e garantir
oportunidades econômicas e sociais para grupos historicamente excluídos.
A democracia só se torna
verdadeiramente plena quando seus direitos alcançam todas as pessoas,
independentemente de sua cor, gênero, origem social ou condição econômica. Para
o movimento negro, os movimentos de mulheres, as juventudes e os diferentes
segmentos populares, o desafio é transformar as expectativas depositadas nas
urnas em conquistas concretas.
A vitória nas urnas
também é uma responsabilidade
A expressiva votação
de Flávio Bolsonaro, que alcançou quase 60 milhões de votos, também revela que
o país continua profundamente dividido. A diferença entre os dois candidatos
demonstra que a vitória eleitoral não elimina divergências políticas, tensões sociais
ou os desafios de reconstrução do diálogo democrático.
Lula terá diante de si
a responsabilidade de governar para todos os brasileiros, inclusive aqueles que
não votaram em sua candidatura. Isso exige capacidade de diálogo, compromisso
institucional e disposição para enfrentar os problemas estruturais que
continuam limitando o desenvolvimento do país.
A vitória não deve ser
interpretada como um cheque em branco. Pelo contrário: a mobilização popular
que contribuiu para o resultado também precisa continuar exercendo seu papel de
acompanhamento, cobrança e participação nas decisões governamentais.
Um encontro de
gerações pela democracia
A imagem dessa eleição
pode ser traduzida pelo encontro simbólico entre jovens que ocuparam as redes
sociais e as ruas e idosos que fizeram questão de comparecer às urnas, mesmo
diante das dificuldades. Gerações que carregam histórias diferentes, mas que
compartilham a responsabilidade de construir o futuro.
Os jovens votaram
olhando para as oportunidades que desejam encontrar amanhã. Os idosos levaram
às urnas a experiência de quem conhece o valor das conquistas democráticas e
sabe que direitos precisam ser defendidos permanentemente.
Ambos representam a
importância de compreender o voto para além de uma obrigação eleitoral. Votar é
exercer cidadania, participar das escolhas coletivas e contribuir para definir
os caminhos de uma nação.
A reeleição de Lula,
portanto, não encerra a disputa sobre os rumos do Brasil. Ela abre um novo
período de expectativas, responsabilidades e desafios. A democracia venceu mais
uma batalha nas urnas. Agora, cabe ao governo transformar a confiança recebida
em políticas públicas, justiça social, igualdade racial, equidade de gênero e
ampliação de direitos.
Porque a democracia
não se sustenta apenas no dia da eleição. Ela precisa estar presente todos os
dias, na garantia de direitos, no respeito às diferenças e na possibilidade de
todas as pessoas viverem com dignidade.
E talvez essa seja a
principal mensagem deixada por essa eleição: o futuro do Brasil não pode ser
construído sem a participação popular, sem a juventude, sem os idosos e,
sobretudo, sem aqueles e aquelas que historicamente lutaram para que a
democracia também fosse um direito de quem, durante muito tempo, teve sua voz
silenciada.