Jornalista
Lucélia Muniz
Ubuntu
Notícias, 20 de abril de 2026
@luceliamuniz_09 @ubuntunoticias
Alexandre Lucas - Pedagogo e coordenador do Direito à Cidade e
Questões Ambientais do Coletivo Camaradas
Em 2019, a cidade do Crato
celebrou a sanção de uma lei que parecia tirar do papel uma ideia visionária. A
Lei Municipal nº 3.612/2019 reconhece o Sítio Urbano do Gesso, uma faixa de
terra às margens da linha férrea, como espaço legalmente destinado ao cultivo
de plantas frutíferas e medicinais. Mais do que uma simples permissão para
plantar, a lei instituiu um modelo inovador que busca casar desenvolvimento
urbano, sustentabilidade ambiental e participação popular.
No entanto, anos após sua sanção,
o que vemos é uma história de contrastes: de um lado, a força da comunidade que
mantém o projeto vivo; de outro, a inércia do poder público, que insiste em
desconhecer o seu papel como promotor da lei. A Lei 3.612/2019 é um retrato
cruel de como boas ideias podem ser sufocadas pela falta de vontade política.
A área do Sítio Urbano do Gesso,
localizada entre a Estação RFFSA do Metrô e a Escola Profissionalizante Violeta
Arraes, foi fruto de uma articulação popular. O Projeto Nova Vida, o Coletivo
Camaradas, outras organizações da sociedade civil e os moradores, vendo o
potencial do espaço abandonado, uniram forças para criar uma esperança verde em
meio ao tecido urbano. A lei veio, então, para formalizar essa conquista,
prevendo que a prefeitura, por meio das secretarias de Secretaria de Meio
Ambiente (Meio Ambiente e Mudança do Clima), Desenvolvimento Agrário
(Desenvolvimento Rural e Recursos Hídricos, e da SAAEC, ofereça suporte
técnico, insumos e assistência para manter a área.
A perspectiva do Sítio Urbano do Gesso
é uma necessidade e um modelo para as gerações futuras. A visão predadora e
dominante de urbanização e de higienização social tem reduzido as áreas verdes
urbanas. A emergência climática é um recado planetário sobre o risco que
vivenciamos, provocado pelo consumo desenfreado, pela redução das áreas verdes
e por um crescimento urbano e industrial despreocupado com a mitigação dos
impactos ambientais.
É papel do Estado garantir as
condições necessárias para a qualidade de vida e a promoção da saúde da
população. Qualquer omissão ou favorecimento à destruição do meio ambiente por
parte do Estado é, no mínimo, um desvio de função do seu papel social (para ser
cordial).
O Sítio Urbano do Gesso representa
uma alternativa real ao modelo de cidade asfaltada e sufocante, que deve ser
replicada em outras áreas da cidade, isso é, por exemplo, previsão da lei. O
Sítio Urbano gera segurança alimentar para a comunidade, oferece um espaço de
lazer e convivência, ameniza a temperatura local e serve como um laboratório
vivo de agroecologia urbana. Em sua essência, a Lei 3.612/2019 é uma ferramenta
para a construção de um território criativo, resiliente e democrático.
Outro aspecto a ser considerado,
além do patrimônio ambiental, é o aspecto histórico, social e econômico que a
área representa. A linha férrea, o imenso depósito de gipsita que dá nome à
comunidade do Gesso, a zona de prostituição e o fluxo da economia que
transitava onde hoje é o Sítio Urbano do Gesso, na entrada da cidade, não podem
ser desprezados.
O exemplo do Sítio Urbano é algo
para ser abraçado por governos democráticos, populares e comprometidos com a
pauta ambiental, que tendem a fazer frente à lógica de urbanização de mercado e
eleitoral, tão predatória à vida humana.
Entretanto, o Sítio Urbano do
Gesso resiste porque existe um cuidado coletivo dos moradores e uma compreensão
de amplitude institucional que coloca em movimento a capacidade de articulação
com as universidades, organizações ambientais, escolas e a insistência junto ao
poder público.
Existe captação de recursos para
fomentar a produção, a formação e a manutenção do Sítio, além do papel
imprescindível dos moradores, como é o caso do reconhecimento da iniciativa
Território Criativo do Gesso, contemplada pelo Prêmio Periferia Viva, do
Ministério das Cidades, o que tem possibilitado o desenvolvimento do Projeto
Agentes do Sítio Urbano do Gesso, um projeto tocado em rede.
O Sítio Urbano do Gesso é um
exemplo para o Brasil de como podemos repensar nossos centros urbanos. Mas ele
só florescerá plenamente quando o poder público assumir a sua parte. Neste
contexto, é preciso reafirmar o lugar de cada instância: aos moradores e
movimentos sociais cabe erguer sonhos, lutas e conquistas; ao Estado, cabe
cumprir as conquistas que são resultados dessas lutas e sonhos.
O Sítio Urbano do Gesso é um
patrimônio do Município do Crato, não é uma iniciativa privada. O que nos cabe
é lutar para que a cidade verde não seja um sonho distante, mas uma realidade
que se constrói.